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PODE RH CONTRIBUIR PARA VIDA SAUDAVEL E PRODUTIVA ?

 

Muitos países em diferentes estágios de desenvolvimento econômico e cultural realizaram esforços para combater a obesidade e outras doenças crônicas nas últimas décadas. Todavia, os resultados alcançados são diminutos e a prevalência dessas doenças segue crescendo. Com base nessa constatação facilmente detectável pelas estatísticas disponíveis, pode-se concluir que os esforços realizados não foram suficientes ou não estão na direção correta?

 

Paralelamente, estudos realizados em regiões específicas do planeta, as Blue Zones, onde existem maiores concentrações de pessoas centenárias, trouxeram à luz alguns fatos relevantes. Dentre eles, a constatação de que ambientes favoráveis para a vida ativa e produtiva contribuem também para a longevidade saudável. Essa relação foi observada nas chamadas Blue Zone por Dan Buettner – escritor, pesquisador e colaborador da National Geographic – e uma equipe de médicos, cientistas e profissionais de comunicação. As pessoas dessas localidades são bem mais ativas e produtivas, caminham mais, cultivam alimentos, fazem a manutenção de suas propriedades, cozinham todos os dias, são mais solidárias, etc.

 

Sim, o uso excessivo de carros, a oferta abundante de alimentos ultraprocessados e nocivos à saúde humana, o sedentarismo por trás de horas dedicadas às telas de televisão, computadores e celulares e a socialização predominantemente via mídias digitais são algumas das facilidades que contribuem muito para a prevalência de sedentarismo, sobrepeso, obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e mesmo 13 tipos de câncer. Esse macroambiente, que não vem sendo combatido por políticas eficazes de saúde pública, impede que os diferentes esforços em distintos países resultem em vida mais saudável e produtiva, inclusive no Brasil.

 

Por aqui, parte da comunidade científica e algumas entidades tentaram realizar importantes mudanças na legislação acerca da rotulagem de alimentos industrializados, a exemplo do que fizeram Chile, México e Reino Unido, dentre outros, mas, em 2020, a Anvisa optou por um caminho mais moderado, que não afeta muito os interesses das indústrias de alimentos.

 

A passos tímidos, nos últimos 20 anos, houve alguma evolução na alimentação escolar com a retirada ou redução de produtos ultraprocessados. Em hospitais, a presença desses alimentos, por incrível que possa parecer, não está limitada ou mesmo disciplinada nem por políticas públicas, nem por normas internas.

 

Nas empresas, as refeições contratadas ou preparadas para os trabalhadores estão alinhadas com as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira? Infelizmente, salvo raras exceções, ainda não. Elas são definidas e preparadas a partir principalmente de seu custo. Apesar de mais de 60% dos brasileiros estarem com sobrepeso e do consistente crescimento nos registros de obesidade, câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, as refeições oferecidas nos refeitórios das empresas ou nos restaurantes tipo quilo desconsideram – e, ainda, pioram – esse quadro. A maioria dos comensais que se alimenta fora de casa serve-se diariamente de refeições inadequadas à sua condição de saúde.

 

Faz sentido ficarmos esperando que as entidades públicas falem a mesma linguagem, atuem harmonicamente em conjunto e pratiquem políticas sérias de saúde pública que favoreçam a vida mais saudável e produtiva? Na falta de leis ou normas internas que disciplinem a publicidade de alimentos nocivos, como margarina e biscoitos recheados, e o uso do nitrato de sódio (cancerígeno) em linguiças e salsichas ou limitem a quantidade de sódio em alimentos industrializados, como o macroambiente pode ser favorável à boa alimentação, à boa nutrição e a menos doenças e mais saúde?

 

Da mesma forma que as empresas não permitem a entrada de toda e qualquer pessoa em seu ambiente, nem de todo e qualquer veículo, é possivel evitar a entrada de alimentos nocivos – por exemplo, o pão com margarina para o café da manhã dos trabalhadores? É possivel também evitar a oferta subsidiada de calorias vazias no cardápio através de refrigerantes e sucos ultraprocessados como já fazem algumas poucas empresas mais comprometidas com a saúde de seus colaboradores? Sim, os raros e bons exemplos existem, mas ainda não recebem a merecida publicidade.

 

Já está fartamente demonstrado, tanto nas Blue Zones como em algumas empresas brasileiras, que a alimentação adequada se traduz em cuidados preventivos com a saúde, em menores gastos com doenças, em vida mais saudável e produtiva. Apenas zelando para que a alimentação diariamente disponibilizada aos trabalhadores siga as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, a empresa assegura um valioso passo para que o local de trabalho seja favorável à saúde. Sem ambiente propício, o que o trabalhador pode fazer para não continuar refém de um sistema obsoleto, oneroso e prejudicial à sua saúde? Nesse quadro, como as empresas são impactadas pelos custos decorrentes das doenças?

 

A PNAN – Política Nacional de Alimentação e Nutrição, aprovada em 1999, vem incorporando, a cada revisão, a necessidade da criação de ambientes alimentares saudáveis, protetores contra a obesidade e doenças crônicas. Atualmente, três das suas nove diretrizes recomendam a criação de ambientes alimentares que estimulem escolhas mais saudáveis e sustentáveis, o controle e a regulação dos alimentos disponíveis e a articulação intersetorial nos ambientes organizacionais, inclusive nos corporativos. Entretanto, ao mesmo tempo, o PAT – Programa de Alimentação do Trabalhador, instituído na década de 1970 e que deveria orientar as empresas nesse sentido, ainda não está alinhado ao novo Guia Alimentar para a População Brasileira e às recomendações atuais da PNAN.

 

Recentemente, a ABRH Brasil (Associação Brasileira de Recursos Humanos) lançou um programa para incentivar ambientes empresariais adequados à saúde. Alia-se a esse ótimo programa a iniciativa do GPTW (Great Place do Work), que criou um ranking especial, o da empresa saudável, no qual a alimentação é um dos itens avaliados. E, o melhor de tudo, mais de 60 empresas já aderiram ao PES – Programa Empresa Saudável, da ABRH Brasil. Esperamos que em breve essas empresas comecem a mostrar os bons resultados, servindo de exemplo para incentivar outras tantas e, provavelmente, compensando a falta de políticas públicas adequadas que favoreçam vidas mais ativas e produtivas.

 

Felizmente, as empresas – em especial, os gestores de RH – têm em suas mãos o poder de contribuir para essa valiosíssima causa.

 

Almir Ribeiro Neto

Presidente da ABPASS